“Seguro multirriscos não é um imposto, é uma proteção contra eventos devastadores”

“Seguro multirriscos não é um imposto, é uma proteção contra eventos devastadores”

Em finais de janeiro deste ano, pouco antes de o “Kristin” entrar em Portugal, o Impact Center for Climate Change (ICCC) – criado em 2024 pela Fidelidade – precisou de contribuir para o ataque à catástrofe na zona centro. De um centro de estudos e investigação criado pela seguradora para aprofundar o conhecimento sobre alterações climáticas e o impacto destes fenómenos na sociedade, especialmente no setor segurador, passou num dia a produzir mapas de incidência de sinistros para perceber o comportamento do fenómeno e apoiar a gestão operacional da companhia durante todo aquele mês.

Rui Esteves, o diretor geral Técnico do grupo Fidelidade é também administrador da Ok! Seguros e co-leader do ICCC e, nessa qualidade, foi entrevistado por ECOseguros.

O que é o Impact Center for Climate Change? Como nasceu esta ideia?

O Impact Center for Climate Change começou a ser pensado em 2021, numa altura em que percebemos que existia muito discurso sobre alterações climáticas, mas pouca reflexão prática sobre o impacto concreto no setor segurador. As seguradoras sempre lidaram com eventos meteorológicos extremos, mas continuávamos muito focados no histórico e menos na antecipação do risco futuro. A ideia foi evoluindo até se transformar num centro de conhecimento dedicado às alterações climáticas, lançado publicamente em outubro de 2024. O objetivo não é apenas responder ao que é necessário para a atividade seguradora, mas criar conhecimento que permita gerar ação climática.

O que significa “ação climática” no contexto do centro?

Falamos de duas dimensões: mitigação e adaptação. Mitigação significa reduzir emissões de gases com efeito de estufa para limitar o agravamento das alterações climáticas. Adaptação significa preparar-nos para consequências que já são inevitáveis. Mesmo que hoje parássemos totalmente as emissões, os efeitos acumulados continuariam durante décadas. Por isso, temos de trabalhar em paralelo: reduzir impactos futuros e preparar infraestruturas, empresas e pessoas para fenómenos extremos cada vez mais frequentes.

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Como funciona o ICCC na prática?

O centro assenta em três esferas de influência. A primeira é o negócio segurador: melhorar subscrição, tarifação, gestão do risco e desenvolver produtos ligados à transição energética e à economia verde. A segunda esfera são clientes e parceiros. Trabalhamos literacia sobre risco climático, prevenção e proteção. Queremos ajudar as pessoas a compreender melhor os riscos e a reduzir vulnerabilidades. A terceira esfera envolve academia, investigadores, decisores políticos e entidades públicas. Criámos parcerias com universidades, projetos de investigação e bolsas para estudantes de mestrado focadas em adaptação e mitigação climática.

O centro trabalha apenas com dados internos?

Não. Utilizamos informação interna, mas também estabelecemos parcerias com centros de investigação e usamos fontes externas para complementar a análise. O objetivo é combinar experiência seguradora com conhecimento científico.

A tempestade Kristin foi um teste ao modelo do ICCC?

Sem dúvida. Foi um evento sem precedentes em Portugal. Rapidamente começámos a produzir mapas de incidência de sinistros para perceber o comportamento do fenómeno e apoiar a gestão operacional. Inicialmente, até subestimámos a dimensão do evento. Sabíamos que era grave, mas não tínhamos ainda noção da escala. Hoje percebemos que as perdas já são cerca de 11 vezes superiores às do Leslie, que durante anos foi considerado a grande tempestade em Portugal.

Que informação conseguiram retirar do evento?

Conseguimos perceber padrões muito relevantes. Em alguns concelhos, mais de 40% das habitações sofreram danos. Houve freguesias onde mais de 80% das moradias foram afetadas. Percebemos também que moradias tinham cerca de 50% mais probabilidade de sofrer danos do que apartamentos, que habitações com painéis solares apresentaram maior incidência de danos e que casas mais recentes não mostraram maior resistência do que construções antigas. Os telhados e coberturas foram dos elementos mais afetados. Estamos agora a aprofundar quais foram exatamente as vulnerabilidades estruturais.

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O que mudou na forma como olham para o risco?

Hoje temos consciência de que os eventos extremos podem crescer exponencialmente em impacto. Pequenas diferenças na intensidade do vento geram aumentos muito significativos nos danos. Já tínhamos estudos anteriores que mostravam isso e o “Kristin” confirmou-o. Se eventos semelhantes atingirem zonas urbanas mais densas, como Lisboa, os impactos podem multiplicar-se várias vezes.

O centro assumiu um papel operacional durante a crise?

Sim. Além da análise técnica, houve um trabalho importante de comunicação e apoio à decisão. Na véspera do evento lançámos alertas e recomendações de autoproteção nas redes sociais. Durante a crise, trabalhámos em articulação com áreas de sinistros, marketing, analytics e rede comercial. A capilaridade da rede no terreno foi decisiva para perceber rapidamente onde estavam os maiores problemas e mobilizar recursos.

As alterações climáticas podem afetar a segurabilidade?

Claramente. Se o risco aumentar demasiado e não forem feitos investimentos de adaptação, os seguros tornam-se progressivamente mais caros ou menos acessíveis. Por isso defendemos que autoridades públicas, empresas e particulares façam investimentos que reduzam vulnerabilidades. Quem investe em proteção deve beneficiar de melhores condições de seguro. A tarifação tenderá a ser cada vez mais baseada no risco efetivo.

O setor segurador está preparado para esta transformação?

Está a adaptar-se rapidamente. As seguradoras têm um papel único porque conseguem perceber não apenas o fenómeno climático, mas também o impacto financeiro concreto dos danos. Essa informação é fundamental para apoiar decisões públicas, planeamento territorial e políticas de prevenção. O conhecimento do risco será cada vez mais determinante.

Qual é a sua posição sobre o fundo catastrófico e o seguro multirriscos obrigatório?

Sou favorável. Portugal tem um enorme protection gap. Segundo dados europeus, nos últimos 40 anos apenas cerca de 5% das perdas associadas a catástrofes naturais estavam seguradas em Portugal. Temos cerca de metade das habitações sem seguro e mais de 80% sem cobertura sísmica. Isso representa uma vulnerabilidade enorme. O seguro obrigatório parece-me a forma mais eficaz de garantir proteção generalizada e resiliência económica e social perante eventos extremos.

Isso não vai aumentar custos para as famílias?

É importante explicar que isto não é um imposto, é proteção. O seguro existe precisamente para responder a eventos raros, mas devastadores. Há também uma lógica coletiva importante. Num prédio com dez frações, se apenas duas tiverem cobertura sísmica, dificilmente será possível reconstruir o edifício após um sismo. A proteção tem de ser transversal para funcionar.

O que falta fazer em Portugal?

Precisamos de mais literacia sobre risco e alterações climáticas. Ainda existe a ideia de que “isto não vai acontecer aqui”, mas os eventos extremos mostram exatamente o contrário. Também precisamos de melhor conhecimento do risco. Estamos a desenvolver estudos sobre incêndios rurais, tempestades e outros fenómenos, integrando cenários climáticos futuros para apoiar decisões de longo prazo. As alterações climáticas já não são um risco do futuro. São um desafio de gestão do presente — para seguradoras, empresas, Estado e sociedade.