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88% dos proprietários tem seguro multirriscos, mas a maioria não sabe o que cobre

88% dos proprietários tem seguro multirriscos, mas a maioria não sabe o que cobre


Agora que o Governo de Montenegro definiu a obrigatoriedade dos seguros multirriscos — medida que contribuirá para a criação de um Fundo de Catástrofes há muito reivindicado pelo setor segurador — na sequência dos danos provocados pelo comboio de tempestades que atravessou Portugal entre 27 de janeiro e 13 de fevereiro, a mediadora digital Mudey realizou o estudo “Barómetro Seguro Multirriscos Habitação 2026: como os portugueses protegem as suas casas?”.

Os resultados foram inesperados. Apesar de 88% dos proprietários inquiridos ter um seguro em vigor, o conhecimento real sobre o produto é fraco. Em média, os participantes acertaram em menos de metade das questões sobre o funcionamento e obrigatoriedade legal do seguro. Mesmo entre quem se auto-avaliou com bons conhecimentos, a média não ultrapassou as 2,6 respostas corretas em 4 perguntas. O estudo, realizado entre março e abril de 2026, contou com 375 participantes, com uma margem de erro de 5%.

Vale ainda notar que, a nível nacional, apenas 53% do parque habitacional tem Seguro Multirriscos Habitação e somente 19% inclui cobertura para risco sísmico.

O banco como porta de entrada

Quanto ao canal de contratação deste tipo de seguro, entre os proprietários com crédito habitação ativo, 57% subscreveu o seguro através do banco – um canal onde, segundo o estudo, o consumidor está focado nas condições do financiamento e “aceita” o seguro em vez de o escolher. Quando o crédito é liquidado, o padrão inverte-se: a maioria migra para seguradoras ou mediadores, canais associados a maior satisfação e melhor perceção de preço.

“O canal por onde se contrata não é um detalhe operacional: molda o envolvimento do cliente com o produto e determina o que sabe”, explica a Mudey.

Quem contratou via banco apresenta o menor nível de satisfação (6,4 em 10) e o maior desconhecimento das coberturas incluídas na apólice, nomeadamente cobertura para tempestades (apenas 19% dos clientes bancários sabia ter esta cobertura) e para fenómenos sísmicos (34% entre clientes de mediadores, contra 16% nos do banco).

A satisfação é baixa

A perceção de preço, o canal de contratação e a motivação para ter o seguro são os fatores que mais influenciam a satisfação, acima de variáveis demográficas como rendimento, idade ou escolaridade, sendo que o nível médio de satisfação com o seguro se situa em 6,9 em 10, um valor que esconde disparidades assinaláveis. Com apenas 28% dos segurados muito satisfeitos e 40% insatisfeitos.

Aqueles que contrataram por iniciativa própria, através de um mediador, acham o preço justo e apresentam níveis de satisfação acima da média; já quem o fez devido a exigência bancária, muitas vezes não sabe o que paga e apresenta níveis de satisfação muito abaixo. De facto, 20% dos segurados não sabe sequer quanto paga pelo seu seguro, e 3 em cada 10 proprietários desconhece o capital seguro da sua própria apólice.

Outro dos dados importantes revelados por este barómetro é o facto de 62% dos proprietários ter delegado num terceiro, seja ele banco, seguradora ou mediador, a definição do capital seguro da apólice. Embora isso possa reduzir o risco de infrasseguro, aumenta a responsabilidade dos profissionais de seguros na definição desse valor no momento da contratação.

“O estudo permite perceber que a relação que o consumidor constrói com o seguro influencia diretamente a forma como o valoriza e o nível de satisfação que tem com o produto. Quando existe um papel mais ativo na escolha – seja na comparação, na procura de informação ou na definição das coberturas – os níveis de satisfação tendem a ser superiores”, explica Ana Teixeira, cofundadora da Mudey. “Por outro lado, quando o seguro é percecionado, sobretudo, como uma obrigação quer bancária quer legal, o sentimento tende a ser mais negativo e distante”.

O que impede uma maior adesão ao seguro multirriscos?

A sensibilidade ao preço (referida por 42%) e a falta de informação sobre coberturas (33%), são alguns dos entraves à contratação de seguro multirriscos. Mas também há boas notícias: entre os que ainda não têm este tipo de seguro, 73% diz ser provável ou muito provável contratá-lo nos próximos 12 meses.

Agora que o Governo anunciou a obrigatoriedade deste tipo de seguro, no âmbito do PTRR, o setor tem a oportunidade de reposicionar o produto e diminuir a desinformação em torno dele.

“O setor tem um papel preponderante na criação das condições necessárias para garantir autonomia e envolvimento do consumidor com o seu seguro, desde o acesso simples à informação até à contratação, assim como a tangibilização do produto em situações do dia-a-dia. Os dados mostram que maior compreensão conduz a uma maior valorização do seguro e níveis de satisfação superiores”, conclui Teixeira.