Efeitos do comboio de tempestades já aparecem nas contas das seguradoras

Efeitos do comboio de tempestades já aparecem nas contas das seguradoras

Todas as seguradoras com atividade em Portugal já revelavam nas suas contas de 31 de março as primeiras consequências do comboio de tempestades, iniciado com o Kristin em 28 de janeiro, segundo o Relatório de Evolução da Atividade Seguradora (REAS) relativo ao 1º trimestre de 2026, agora publicado pela ASF, entidade de supervisão do setor.

O grande desvio deu-se na sinistralidade do ramo Incêndio e Outros Danos – em que os seguros multirriscos habitação, comercial e industrial pesam 92% para o total. No primeiro trimestre de 2025, os montantes pagos pelas seguradoras em indemnizações foram de 148 milhões de euros enquanto no primeiro trimestre deste ano esse valor atingiu os 390 milhões.

Este desvio de quase 250 milhões de euros diz respeito apenas aos pagamentos realizados em fevereiro e março estando ainda por contabilizar os pagamentos realizados a partir de abril. Segundo as últimas estimativas da Associação Portuguesa de Seguradores, divulgadas em 19 de maio, só o comboio de tempestades causou prejuízos de 1,3 mil milhões de euros às companhias.

Assim, nos próximos relatórios trimestrais será mais visível a contabilização de prejuízos de mais de mil milhões de euros. Para já a taxa de sinistralidade, neste ramo que inclui os seguros multirriscos, subiu acima dos 100%, o que significa que as receitas de prémios já não cobrem as indemnizações e outros custos diretos de sinistros suportados pelas seguradoras.

Do ponto de vista de gestão, esta taxa de sinistralidade de 101,9% já significa resultados técnicos negativos para este ramo, sem ainda incluir as despesas como as comissões de venda à distribuição e gastos gerais, situação que – normalmente – faz o supervisor de seguros em Portugal exigir medidas corretivas imediatas às companhias.

No entanto, como outros ramos conseguem compensar os prejuízos, a taxa de sinistralidade no conjunto dos ramos Não Vida agravou-se de 48% no primeiro trimestre de 2025 para 56% em igual período deste ano. Um desvio suportável para as seguradoras em Portugal.

Produção cresce mais em seguros de Vida

O relatório REAS 1º trimestre 2026 (T12026) compara dados com igual período de há um ano (T12025) e por vezes com o trimestre anterior, que neste caso coincidiu com o final do ano 2025 (T42025).

Os principais dados são:

  • No mercado total em Portugal (ramos Vida e Não Vida), a produção de seguro direto registou um aumento de 18,2% em T12026 face a T12025, situando-se acima dos 4.968 milhões de euros;
  • O ramo Vida cresceu 28,1% para 2.566 milhões de euros, representando 51,7% da produção (mais 4% em relação a T12025).
  • Para este acréscimo contribuíram mais os seguros de vida Não Ligados (a Fundos de investimento) com subida de 29,2%, em particular os seguros de vida excluindo PPR (+61,2%). Os seguros de vida Ligados registaram um aumento de 26,2%;
  • No total do mercado, os Planos Poupança Reforma (PPR), Ligados e Não Ligados, diminuíram 41% face ao período homólogo de 2025;
  • Os montantes pagos do ramo Vida diminuíram 8,5% face T12025, para 1.173 milhões de euros. Diminuíram nos seguros de vida Não Ligados (-14,7%), registando um acréscimo, ainda que pouco significativo, nas modalidades de seguros de Vida Ligados (+4,2%).
  • Os resgates cresceram 5,8% face a T12026, tendo representado 55,3% dos montantes pagos do período em análise, valor superior ao verificado em T12025 (47,8%).
  • O total de resgates em T12026 atingiu 649 milhões de euros, devendo-se 370 milhões de euros a produtos Não Ligados e 279 milhões a produtos Ligados.

Crescimento dos ramos Não Vida absorvido pelas tempestades

  • A produção dos ramos Não Vida ultrapassou 2.402 milhões de euros em T12026, mais 9,2% (ou mais 202 milhões) que em T12025.
  • No oposto, os montantes pagos de seguro direto do total do mercado apresentaram um acréscimo de 27,6% face a T12025, atingindo 1.353 milhões de euros. Este acréscimo foi mais significativo no ramo Incêndio e Outros Danos (+162,5%), que inclui seguros multirriscos, devido ao aumento resultante do pagamento das indemnizações referentes ao “comboio de tempestades” ocorridas nos dois primeiros meses do ano.
  • Em T12026, a produção de seguro direto de Acidentes de Trabalho apresentou um crescimento de 6,5% face aos valores do período homólogo de 2025. Os montantes pagos tiveram um aumento ligeiro de 1,2% face T12025 e o rácio “Montantes Pagos / Prémios” diminuiu 2,2 pontos percentuais para 40,9%.
  • A produção de seguro direto do ramo Doença apresentou um aumento de 9,9% face a T12025. Os montantes pagos apresentaram um crescimento de 12,8%, tendo o rácio “Montantes Pagos / Prémios” agravado de 45,9% em T12025 para 47,2% em T12026
  • No ramo Automóvel, os prémios brutos emitidos de seguro direto registaram uma variação positiva de 10,7% face a T12025. A taxa de sinistralidade medida pelo rácio “Montantes Pagos / Prémios” diminuiu de 67,6% para 62,3%.

Investimentos em alta

  • As Provisões Técnicas do conjunto das seguradoras foram contabilizadas em 49.122 milhões de euros no final de T12026. É um acréscimo de 4,3% do valor total face ao T42025, mas de +11,3% face ao final T12025.
  • O valor total dos ativos sob gestão aumentou 1,2% face ao último dia de T42025 atingindo 57.229 milhões de euros. Os investimentos repartiram-se entre Obrigações de Dívida Pública (36%), Obrigações de entidades Privadas (24%), Fundos de Investimento (23%), Ações (9%), Produtos estruturados (2%), Hipotecas e Empréstimos, Imobiliário e Derivados em conjunto contavam para 3% dos investimentos e 4%, quase 2,2 mil milhões de euros, estavam colocados em liquidez imediata (numerário e depósitos). Instrumentos de dívida representavam 86,3% das carteiras de investimento dos seguros de Vida Não Ligados a Fundos de investimento.

Solvência também abalada pela Kristin

  • O rácio estimado de cobertura do Requisito de Capital de Solvência (SCR) do conjunto das empresas sob supervisão prudencial da ASF foi, no final de T12026, de 195%, o que representa um decréscimo 14% face ao final de T42025. Ainda assim, o rácio está muito acima dos 100% mínimos, indicando a presença nas contas das seguradoras de quase o dobro do capital necessário para estas absorverem perdas inesperadas e continuarem a operar.
  • O outro indicador de solvência ou solidez utilizado pelos supervisores, o rácio estimado de cobertura do Requisito de Capital Mínimo (MCR) da totalidade das seguradoras, registou uma diminuição de 57 pontos percentuais, situando-se em 509%, cinco vezes acima do necessário. Também o MCR tem um limite mínimo de 100% de capital abaixo do qual a situação da seguradora é considerada crítica do ponto de vista regulatório.