Está na hora de os CEOs apostarem em Cavalos de Tróia

Está na hora de os CEOs apostarem em Cavalos de Tróia

Para muitos líderes, manter-se no poder torna-se uma verdadeira dependência. Mesmo pessoas altamente inteligentes podem cair na armadilha de preservar a sua posição em vez de desafiar o status quo. Como consequência, evitar agitar as águas acaba por se tornar a estratégia preferida para permanecer confortavelmente sentado num trono dourado, mesmo que isso signifique travar o progresso ou contornar os princípios que outrora impulsionaram a inovação.

Vemos este padrão repetidamente na política. Figuras como Trump, Putin, Orbán, Lukashenko e a liderança talibã demonstram como o poder pode tornar-se um fim em si mesmo. No entanto, a História ensina-nos que todos os reinados acabam por chegar ao fim. Mais cedo ou mais tarde, as pessoas começam a resistir — mesmo correndo grandes riscos pessoais, como testemunhamos em países como o Irão.

Esta resistência não se limita aos regimes autoritários. A mesma relutância em abraçar a mudança existe sempre que o poder se concentra nas mãos de poucos. É uma das razões pelas quais as nossas economias, sociedades e o ambiente chegaram a um ponto tão crítico. Vemos os sinais de alerta todos os dias. Sofremos as consequências ano após ano. Ainda assim, a ação transformadora continua limitada, porque a verdadeira mudança exige coragem — e a coragem tem, muitas vezes, um preço.

O Cavalo de Tróia a que me refiro aqui não é um símbolo de engano ou conquista. É um símbolo de renovação a partir do interior: um mecanismo deliberado que ajuda as organizações a desafiar a sua própria inércia, a repensar crenças enraizadas e a abraçar gradualmente mudanças significativas. Com a coragem em falta entre muitos políticos e líderes empresariais, proponho uma abordagem diferente: trazer Cavalos de Tróia.

Um Cavalo de Troia é mais eficaz quando um problema é amplamente reconhecido, profundamente sentido e, ainda assim, encarado como demasiado complexo para ser resolvido. Perante desafios desta natureza, os líderes sentem-se frequentemente impotentes. Ao mesmo tempo, hesitam em colocar em risco a sua posição, a sua remuneração ou a sua influência, tomando decisões ousadas e potencialmente impopulares.

Muitos comités executivos e conselhos de administração foram moldados pela doutrina popularizada por Milton Friedman: a de que a principal responsabilidade das empresas é maximizar o valor para os acionistas. Embora esta filosofia continue profundamente enraizada no pensamento empresarial, está cada vez mais desalinhada com os desafios do século XXI

Introduzir um Cavalo de Tróia numa organização é, por isso, uma escolha deliberada e estratégica. Significa incorporar agentes de mudança na empresa — indivíduos ou equipas cuja missão é influenciar gradualmente a cultura, os processos de decisão e as prioridades a partir do interior. Em vez de impor a transformação de fora para dentro, ajudam a organização a evoluir de dentro para fora.

O primeiro passo é a consciencialização. Infelizmente, muitos comités executivos e conselhos de administração foram moldados pela doutrina popularizada por Milton Friedman: a de que a principal responsabilidade das empresas é maximizar o valor para os acionistas. Embora esta filosofia continue profundamente enraizada no pensamento empresarial, está cada vez mais desalinhada com os desafios do século XXI.

Muitas empresas falam extensivamente sobre sustentabilidade, regeneração, impacto comunitário e propósito. Os relatórios anuais estão repletos de compromissos e os websites transbordam de linguagem inspiradora. No entanto, os recursos efetivamente alocados a estes objetivos permanecem, muitas vezes, insignificantes face à dimensão dos desafios que afirmam enfrentar. Com demasiada frequência, a comunicação ultrapassa o compromisso.

Imagine, em vez disso, que CEOs, membros de conselhos de administração, executivos, colaboradores e até políticos experimentassem genuinamente o que significa cuidar do nosso património humano e ambiental comum. Imagine decisões orientadas não apenas pelos resultados trimestrais, mas também pela responsabilidade de longo prazo perante as gerações futuras.

É aqui que o Cavalo de Tróia pode desempenhar o seu papel.

O processo começa com sessões de consciencialização nos mais altos níveis de liderança. A partir daí, pode ser construído, dentro da organização, um movimento de mudança convincente e estruturado. Com o tempo, este Cavalo de Tróia interno ajuda a alinhar estratégia, cultura e comportamentos, criando uma transformação que é abraçada em vez de imposta.

Os desafios que enfrentamos hoje não resultam de uma falta de conhecimento. Resultam de uma falta de coragem. Talvez o Cavalo de Troia não seja uma ameaça à liderança, mas sim uma ferramenta para ajudar os líderes a redescobrir a coragem de liderar.

O autor pode ser contactado através de stevbraek@gmail.com