A Grande Mentira da Solvência

Há uma ideia que domina silenciosamente o setor segurador europeu, a de que o risco pode ser medido com precisão suficiente para ser controlado. Toda a arquitetura regulatória moderna assenta nessa premissa.
SCR1. ORSA2. Stress tests. Modelos internos. VaR3. Distribuições do risco. Matrizes de correlação. Milhares de páginas de documentação. Milhões de euros investidos em governance, validação e supervisão.
Mas e se estivermos todos a confundir sofisticação com conhecimento?
E se o setor estiver a construir uma ilusão de precisão cada vez mais sofisticada para esconder uma realidade muito mais desconfortável?
O International Valuation Standards Council, organização que fornece regras respeitadas por investidores, reguladores e auditores a nível mundial, publicou recentemente um documento sobre “Value Uncertainty”, que faz uma distinção aparentemente técnica, mas potencialmente revolucionária: uma coisa é o risco de avaliação; outra é a incerteza inerente ao valor.
O risco de avaliação resulta de erros. A incerteza resulta da própria realidade.
O primeiro pode ser reduzido. O segundo não.
A implicação desta distinção vai muito para além das avaliações. Coloca em causa a própria filosofia que sustenta grande parte da regulação financeira moderna.
Durante décadas, o setor segurador acreditou que mais dados conduziriam a melhores previsões. Que modelos mais sofisticados conduziriam a uma compreensão mais profunda do risco. Que mais granularidade produziria mais segurança.
Mas a realidade parece seguir a direção oposta.
Quanto mais complexo se torna o mundo, menos previsível ele parece.
A pandemia não estava nos modelos. A invasão da Ucrânia não estava nos modelos. A crise energética não estava nos modelos. A explosão da inteligência artificial não estava nos modelos. A fragmentação geopolítica não estava nos modelos.
E, no entanto, continuamos a agir como se o problema fosse a falta de informação. Talvez o problema seja precisamente o contrário. Talvez estejamos a recolher cada vez mais dados para evitar admitir que existem riscos sistémicos que simplesmente não podem ser modelizados com um grau significativo de confiança.
O setor segurador gosta de falar sobre “model risk”. Fala muito menos sobre “unknown risk”. Contudo, a diferença é crucial.
O primeiro pressupõe que existe uma resposta correta que ainda não encontrámos. O segundo admite que talvez não exista resposta correta.
A obsessão regulatória pela quantificação tem produzido um efeito perverso. As empresas de seguros tornaram-se extraordinariamente eficientes a medir aquilo que conseguem medir. Mas podem estar a tornar-se progressivamente cegas àquilo que realmente importa.
Quando uma organização passa anos a reportar números com duas casas decimais, é natural que os decisores comecem a acreditar que essas duas casas decimais significam alguma coisa. Frequentemente não significam. Representam apenas uma falsa sensação de controlo.
O paradoxo é que a própria transparência pode estar a criar opacidade. Quanto mais detalhados se tornam os modelos, mais difícil é perceber as suas limitações. Quanto mais sofisticadas se tornam as métricas, menos discutidas são as suas premissas. Quanto mais confiança depositamos nos números, menos questionamos aquilo que não sabemos.
E é precisamente aqui que reside o verdadeiro risco sistémico. Não na insuficiência de capital. Não na volatilidade dos mercados. Não nas catástrofes naturais, mas na convicção coletiva de que compreendemos melhor o futuro do que realmente compreendemos.
O setor segurador construiu a sua reputação sobre a gestão da incerteza. Hoje corre o risco de acreditar que a eliminou. Não eliminou. Apenas a escondeu atrás de folhas de cálculo mais sofisticadas.
As empresas de seguros mais resilientes no futuro não serão necessariamente aquelas que possuem os modelos mais avançados. Serão aquelas que mantiverem a humildade intelectual para reconhecer os limites desses modelos.
Porque a história financeira mostra que as maiores crises raramente surgem dos riscos que estamos a medir; surgem dos riscos que julgávamos já ter compreendido. E talvez a maior vulnerabilidade do setor segurador europeu seja precisamente essa:
Não a falta de capital, mas o excesso de confiança.
1 Requisitos de capital de solvência.
2 Autoavaliação de riscos e de solvência.
3 Value-at-Risk.
