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O que os bancos italianos querem é a Generali

O que os bancos italianos querem é a Generali


A seguradora Generali está a ser considerada a peça fundamental na nova onda de fusões e aquisições que está a aquecer a Itália financeira. Está em jogo quem controla os principais centros de poder financeiro privados de Itália. E a Generali é o ativo estratégico central dessa disputa.

Na passada segunda-feira, o Intesa Sanpaolo, maior banco de Itália com 653 mil milhões de euros em ativos em 2024, lançou uma oferta de cerca de 30,6 mil milhões sobre o Banca Monte dei Paschi di Siena (MPS), sexto maior banco do país com 122 mil milhões de euros de ativos.

Este movimento surgiu logo após o Banco BPM, quarto maior banco do país com 180 mil milhões de ativos, ter proposto uma fusão com o MPS para criar uma instituição bancária que seria a segunda maior do país, ultrapassando o Unicredit.

Numa semana a Itália económica ficou submersa neste “risiko bancario”, expressão usada no país para jogada de bastidores entre os grandes protagonistas financeiros.

A Generali na política italiana

Após a aquisição da Mediobanca pelo MPS em 2025, este passou a controlar indiretamente uma participação de cerca de 13% na Generali. O Governo de Giorgia Meloni deixou claro que qualquer venda dessa posição teria de respeitar os interesses estratégicos italianos e preservar a estabilidade financeira do país. Luigi Lovaglio, CEO do MPS, teve conversas escutadas publicadas no jornal La Repubblica e foi claro a dizer “a Generali é estratégica”. Falou de que a compra do Mediobanca pelo MPS era “a fase 1”, sendo a compra da Generali “a fase 2”.

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Giorgia Meloni, primeira-ministra de Itália, EPA/FILIPPO ATTILI /PALAZZO CHIGI HANDOUT EPA/FILIPPO ATTILI

Segundo fontes citadas pela Reuters, Roma considera a Generali uma instituição sistémica e pretende evitar que o controlo efetivo da seguradora passe para investidores estrangeiros ou para estruturas consideradas menos alinhadas com os interesses nacionais. Oficialmente, Giancarlo Giorgetti, ministro da Economia e Finanças da Itália, disse apenas “queremos a melhor oferta” pela parte que o Estado ainda possui no capital da MPS.

Segundo a imprensa italiana, a mensagem de Roma quanto à reorganização do setor financeiro privado tem sido relativamente consistente. Meloni é favorável à consolidação bancária, tem preferência por soluções com centros de decisão em Itália, apoia combinações entre bancos e seguradoras italianas em bancassurance, exige maior escrutínio quando o comprador é visto como potencialmente desalinhado com os interesses nacionais ou quando o controlo pode sair do país e, sem dúvida, quer a proteção da Generali como ativo estratégico nacional.

Para compreender as atenções dos governos italianos, é importante salientar o que os ativos totais sob gestão pela Generali representam em poupanças dos italianos e dívida pública do país. A sua gestão é fundamental para o equilíbrio do sistema financeiro e das contas públicas em Itália. Daí que os políticos não percam de vista o que se passa na sede da Generali, em Trieste.

Isto porque o total de ativos sob gestão pela seguradora ascendia a cerca de 854,1 mil milhões de euros em 30 de junho de 2025. Relativamente à exposição à dívida pública, o relatório integrado de 2024 indica que a seguradora detinha diretamente 91,5 mil milhões de euros em obrigações soberanas no final desse ano, a que se deve adicionar investimento indireto via fundos de investimento e não considerando a gestão de ativos para terceiros. Um tratamento desastrado destes investimentos pode, no limite, causar tumulto social e défices orçamentais.

Assim, o mercado acredita que Roma prefere soluções envolvendo Banca Monte dei Paschi di Siena, Banco BPM, Unipol e o universo da Generali, conisiderado um polo financeiro mais alinhado com interesses nacionais numa disputa sobre quem desenha o futuro do capitalismo financeiro italiano.

O eixo Governo–MPS–Mediobanca–Generali–Unipol, é também chamado o “salotto buono” da economia italiana — o círculo de grandes grupos financeiros e industriais com influência significativa no país. A expressão equivale a um “salão nobre” de uma casa, e alude a uma esfera social onde industriais e financeiros italianos, com a benção do poder político, se blindam – desde o pós II Guerra – contra ofensivas estrangeiras às suas empresas, sempre controladas com percentagens de capital minoritárias

A bela do ‘salão nobre’

O eixo Governo–MPS–Mediobanca–Generali–Unipol, é também chamado o “salotto buono” da economia italiana — o círculo de grandes grupos financeiros e industriais com influência significativa no país. A expressão equivale a um “salão nobre” de uma casa, e alude a uma esfera social onde industriais e financeiros italianos, com a benção do poder político, se blindam – desde o pós II Guerra – contra ofensivas estrangeiras às suas empresas, sempre controladas com percentagens de capital minoritárias.

O Intesa SanPaolo faz parte deste chamado “salotto buono”. O exemplo é a vaga de consolidação bancária em curso. Quando a Intesa lançou a oferta sobre o Banca Monte dei Paschi di Siena, fontes próximas do governo indicaram que o executivo de Giorgia Meloni não pretendia bloquear a operação e adotaria uma posição essencialmente neutra.

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Esta posição da primeira-ministra era essencial porque Andrea Orcel, CEO do Unicredit, o segundo maior banco de Itália, não está no “salotto buono”. Quando o UniCredit lançou a OPA sobre o Banco BPM em 2024/2025, a primeira-ministra utilizou os chamados poderes especiais golden power para impor condições à operação. Bruxelas criticou essa intervenção, considerando-a potencialmente incompatível com as regras europeias, mas a OPA caíu.

Nessa altura a leitura dos mercados foi que o Governo preferia uma alternativa doméstica envolvendo o BPM e o ecossistema construído em torno do Banca Monte dei Paschi di Siena (MPS), em vez de permitir que o UniCredit se tornasse ainda mais dominante.

Ou seja, este banco liderado por Andrea Orcel tem sido visto como um ator difícil de enquadrar na estratégia de construção de campeões nacionais que Roma procura promover. Orcel é visto como demasiado independente, não alinhado com os objetivos políticos do Governo. Ao contrário de outros atores do sistema financeiro italiano, tem seguido uma lógica estritamente financeira e europeia. É apontado que o UniCredit tornou-se cada vez mais europeu e menos italiano, tem uma presença muito forte na Alemanha, Europa Central e Oriental e tentou simultaneamente operações como a entrada do capital do alemão Commerzbank. Para alguns setores políticos italianos, isso reduz a perceção de que a UniCredit pode ser um instrumento de política económica nacional.

O Estado italiano conta apenas com a Cassa Depositi e Prestiti, terceiro maior banco por ativos, mas este é – como o português Banco de Fomento – uma instituição financeira pública de desenvolvimento, não um banco comercial tradicional com oportunidade e legitimidade para alterar o rumo de transformação do setor financeiro.

Quem são os protagonistas?

Os atores deste movimento de compras são então o Intesa Sanpaolo, o Banco BPM, a Banca Monte dei Paschi di Siena (MPS) em conjunto com o Mediobanca, a Unipol, a Generali e, por via desta, as famílias Del Vechio, Caltagirone e Benetton.

Embora tenha sido historicamente cauteloso em grandes aquisições desde a compra e posterior integração do UBI em 2021, o Intesa Sanpaolo voltou agora ao centro da consolidação. Assim, lançou uma oferta pública voluntária de troca e aquisição sobre a totalidade das ações ordinárias do Banca Monte dei Paschi di Siena (MPS), que controla 86% do Mediobanca que por sua vez controla 13% da Generali. Diretamente o Intesa foi comprando partes da Generali e já terá 3,01% do capital, embora o CEO Carlo Messinda tenha comentado tratar-se “de uma posição temporária e puramente financeira”.

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DR

A proposta do Intesa prevê a atribuição de 16 novas ações do Intesa por cada 10 ações do MPS entregues, acrescida de um pagamento em dinheiro de 1 euro por cada ação do MPS. A oferta avalia o MPS com um prémio de 12,5% face ao preço de fecho de 5 de junho de 2026 e com prémios de 17,4% e 18,7% relativamente aos preços médios ponderados pelo volume de negociação dos últimos três e seis meses, respetivamente.

O Intesa Sanpaolo apresenta esta operação como um passo estratégico destinado a reforçar a sua posição como líder europeu nas áreas de gestão de património, proteção e serviços de consultoria. Para antecipar exigências das autoridades da concorrência, celebrou um acordo vinculativo com a Unipol Assicurazioni para a alienação de uma entidade bancária que incluirá a marca MPS, cerca de 635 balcões e a maioria das funções centrais necessárias para uma operação bancária autónoma, por um valor entre 3 mil milhões e 3,5 mil milhões de euros.

O Intesa manterá, contudo, o Mediobanca, cerca de 625 balcões e atividades que representam aproximadamente 80% do resultado líquido combinado do MPS e do Mediobanca realizado em 2025.

Liderado pelo CEO Carlo Messina, sempre com o apoio do presidente Gian Maria Gros-Pietro, o Intesa Sanpaolo é um banco sem acionista de controlo, mas com um núcleo duro de fundações com cerca de 12% do capital que sustenta a liderança de Carlo Messina, provavelmente o gestor bancário mais influente de Itália na última década.

O Intesa Sanpaolo é o líder bancário italiano, tem cerca de 900 mil milhões de euros em ativos, uma rede de 3.569 balcões – 2.645 em Itália e 924 no estrangeiro- e aproximadamente 90 mil trabalhadores. Com uma capitalização bolsista próxima dos 95 mil milhões de euros, é atualmente um dos bancos mais valiosos da Europa e, caso conclua a aquisição do MPS, passará a ser o segundo maior banco da Zona Euro por valor de mercado, apenas atrás do Banco Santander.

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O começo desta turbulência aconteceu, contudo, na passada semana quando o Banco BPM, quarto maior banco italiano, anunciou que o seu conselho de administração aprovou por unanimidade a intenção de iniciar negociações com o MPS sobre uma potencial fusão no valor de 50 mil milhões de euros.

A proposta para o MPS é uma fusão estratégica doméstica de grande escala, com sinergias de 1,1 mil milhões e passando a três – com o Intesa e o Unicredit – o número de grande grupos financeiros italianos. Assim, o Banco BPM propõe uma fusão “entre iguais” com governança partilhada e preservação de identidade. Fala em vender a participação de 13% que a MPS – via Mediobanca – detém na Generali.

O Banco BPM é atualmente o quarto maior banco italiano, com cerca de 206 mil milhões de euros em ativos, uma rede de aproximadamente 1.400 balcões, 19 mil colaboradores e uma capitalização bolsista próxima dos 20 mil milhões de euros.

Embora não tenha controlo formal, o Crédit Agricole (20,1%) é claramente o acionista mais influente. Em janeiro de 2026 recebeu autorização do BCE para ultrapassar os 20% do capital, consolidando-se como acionista estratégico de longo prazo. O grupo francês afirma não pretender lançar uma OPA nem assumir o controlo do banco, mas exerce uma influência significativa na governação.

Nas eleições para o conselho de administração de abril de 2026, o Crédit Agricole conseguiu eleger quatro administradores, reforçando o seu peso na supervisão do banco. O Banco BPM é liderado por Giuseppe Castagna, CEO desde 2017 e principal rosto da consolidação do banco, apoiado pelo acionista de referência Crédit Agricole, enquanto a presidência é assegurada por Massimo Tononi.

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O Banca Monte dei Paschi di Siena está numa fase de pré-decisões. Primeiro, tem de integrar o Mediobanca no MPS. Em março foi aprovado o projeto de fusão por incorporação da Mediobanca no MPS, com uma relação de troca de 2,45 ações MPS por cada ação Mediobanca e o objetivo declarado continua a ser concluir essa integração. Para esse passo espera aprovação regulatória para setembro e realizar assembleias extraordinárias de acionistas no outono e retirar a Mediobanca de bolsa até ao final de 2026.

Depois terá de resolver o seu destino. A oferta do Intesa acabou de ser anunciada e ainda está numa fase muito inicial. O Intesa acredita ter apoio relevante de acionistas como Del Vechio e Caltagirone, o governo italiano parece menos hostil do que foi noutras operações bancárias recentes e o mercado reagiu positivamente, com fortes subidas das ações do MPS e da Mediobanca. No entanto, para seguir esta via falta aprovação dos acionistas, autorização regulatória e garantia de sucesso da OPA.

Tem ainda de analisar a oferta mais amigável de fusão com o Banco BPM e ver para onde pende a história: BPM ou Intesa. Esta versão de futuro estará mais de acordo com opiniões de Lovaglio em que repetidamente falou do interesse na criação de “um terceiro polo bancário” e de um “campeão nacional”.

O MPS é um banco comercial italiano de média escala, com cerca de 240 mil milhões em ativos, 22 mil empregados e uma rede de mais de 1.300 balcões, atualmente reposicionado após reestruturação estatal e no centro da consolidação do sistema bancário italiano. Tem as maiores participações a pertencerem às famílias Del Vechio (17,5%) e Caltagirone (10,3%), ambos diretamente acionistas – e de referência – na Generali. Tem ainda participações de numerosos fundos internacionais.

O MPS é liderado por Luigi Lovaglio, responsável pela recuperação e reprivatização do banco, contando com o apoio dos tais principais acionistas privados, Delfin (Del Vechio) e Francesco Gaetano Caltagirone, enquanto a presidência é exercida por Cesare Bisoni.

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A seguradora Unipol tem surgido repetidamente como parceira nas operações de consolidação. O grupo já é um acionista relevante da BPER Banca e foi integrado no desenho da oferta da Intesa sobre o MPS. Nesse modelo, a Unipol ficaria com centenas de balcões e ativos do MPS para resolver questões concorrenciais.

O mercado interpreta a Unipol como a líder do sistema cooperativo de Bolonha, e é vista como um dos veículos através dos quais o Governo vê reforçada uma arquitetura financeira “italiana”, combinando banca, seguros e gestão de ativos.

É segunda maior seguradora de Itália, com cerca de 90 mil milhões de euros em ativos, 13 mil trabalhadores, mais de 2.000 agências e uma capitalização bolsista próxima dos 15 mil milhões. Registou em 2025 um volume de prémios brutos de 17,4 mil milhões de euros e é liderada por Matteo Laterza como CEO e por Carlo Cimbri, o histórico gestor do grupo, na presidência. Cimbri continua a ser uma das figuras mais influentes do setor financeiro em Itália, não apenas pela Unipol, mas também pelas participações relevantes do grupo em bancos como o BPER Banca e outras instituições financeiras italianas.

Generali: gestão difícil de contestar, mas ainda assim contestada

A posição pública da administração da Assicurazioni Generali, liderada pelo CEO Philippe Donnet, tem sido, até agora, de neutralidade formal. A Generali não é parte na operação sobre a Banca Monte dei Paschi di Siena e a gestão liderada por Philippe Donnet tem evitado tomar partido na disputa entre Intesa, MPS, Banco BPM e os vários acionistas de referência. Contudo, na prática, a seguradora está no centro do conflito porque o controlo indireto da sua participação acionista é um dos principais prémios estratégicos da operação.

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Do lado da Generali, o principal interesse parece ser a preservação da independência da seguradora e da estabilidade acionista. A companhia continua a ser vista pelo governo italiano e por vários centros de poder financeiro como um ativo estratégico nacional. A participação de cerca de 13% atualmente controlada pela MPS, através da Mediobanca, é considerada um ativo sensível e qualquer mudança relevante no seu controlo tem implicações políticas e financeiras.

Em 2025, a Generali registou 98,1 mil milhões de euros em prémios brutos, cerca de 900 mil milhões de euros em ativos sob gestão, um resultado operacional recorde de 8 mil milhões de euros e aproximadamente 88 mil colaboradores em mais de 50 países. Além disso, tem operações relevantes na Ásia e na América Latina. A sua rede de distribuição inclui cerca de 163 mil agentes e consultores, que servem aproximadamente 75 milhões de clientes. Em Portugal é o terceiro maior grupo segurador total, sendo o segundo maior nos ramos Não Vida.

Em 2025, a Generali registou 98,1 mil milhões de euros em prémios brutos, cerca de 900 mil milhões de euros em ativos sob gestão, um resultado operacional recorde de 8 mil milhões de euros e aproximadamente 88 mil colaboradores em mais de 50 países. Além disso, tem operações relevantes na Ásia e na América Latina. A sua rede de distribuição inclui cerca de 163 mil agentes e consultores, que servem aproximadamente 75 milhões de clientes. Em Portugal é o terceiro maior grupo segurador total, sendo o segundo maior nos ramos Não Vida.

Muito relevante tem sido o francês Philippe Donnet que teve a sua iniciação nos seguros na AXA após se ter formado em atuariado. Foi nomeado CEO do grupo Generali em março de 2016 e desde aí a cotação das ações subiu três vezes de 13 para 40, uma subida média anual de 12%, o que significa que o valor de mercado triplicou para os atuais 60 milhões de euros.

O ROE (retorno dos capitais próprios) foi sustentadamente acima de 13% durante quase toda a década, com lucro recorde superior a 4 mil milhões de euros em 2025, um dos mais elevados das grandes seguradoras europeias. Em dividendos entre 2022 e 2027 serão distribuídos mais de 12 mil milhões de euros enquanto existe um programa de compra de ações próprias que já atingiu os 3% do capital.

Comercialmente os prémios emitidos vão superar os 100 mil milhões de euros em 2026. O paradoxo é que os resultados recentes da Generali têm sido muito fortes — lucro recorde, dividendos elevados e cumprimento das metas do plano estratégico — o que torna mais difícil argumentar que a estratégia de Donnet falhou.

O plano estratégico da Generali até 2027 reforça o foco na rentabilidade pretendendo crescer mais através de segmentos com maior margem como Saúde, Proteção, PME e Não Vida em geral, e melhorar a eficiência operacional aumentando o retorno sobre o capital. Paralelamente procura uma remuneração atrativa para os acionistas com dividendos crescentes e recompras de ações, algo muito valorizado pelos investidores institucionais.

Dai que o apoio dos institucionais seja adicionado ao do Mediobanca e seja suficiente para constantes mandatos novos de Donnet à frente do grupo, mas tem oposição de três investidores muito importantes em Itália. A família Del Vechio, através da holding Delpin, que tem 10,15% da Generali, mas também 2,8% do Unicredit e 17,53% do MPS. Francesco Gaetano Caltagirone que tem 7% da Generali e 10,3% do MPS e a família Benetton que detém, através da holding Edizione, 4,9%. Para juntar a esta mistura, o Unicredit terá agora 8,8% do capital da Generali.

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A família Del Vechio tem 10% da Generali mas sonha com Armani e L’Oreal. Leonardo Maria Del Vecchio, de 31 anos, está a afirmar-se como o principal herdeiro do império empresarial Delpin construído pelo pai, Leonardo Del Vecchio, fundador da EssilorLuxottica, grupo detentor de marcas como Ray-Ban e Oakley. Comprou a participação dos irmãos e acaba de se entender com o meio-irmão para controlar a holding familiar com posições decisivas na EssilorLuxottica, a Mediobanca e a Generali.

A consolidação do poder de Leonardo Maria Del Vecchio alimenta também especulações sobre uma estratégia mais ambiciosa para o futuro do grupo. A imprensa financeira italiana tem apontado o interesse do herdeiro em expandir a presença da família no setor do luxo e da beleza, com potenciais movimentos envolvendo empresas como Armani ou até a L’Oréal, reforçando a influência da família Del Vecchio para além do universo da ótica.

Tem 10,15% de participação na Generali, com um valor atual de mais de 7 mil milhões de euros e é o segundo maior investidor no Unicredit com 2,8% das acções. Tem alinhado com Caltagirone nas críticas ao CEO da Generali e parece alinhada com a OPA da Intesa San Paolo.

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Francesco Gaetano Caltagirone e família têm 5% da Generali, e muitos interesses em cimento, imobiliário e jornais. O império construído por Caltagirone está fortemente ancorado em indústrias tradicionais através da Cementir Holding, uma multinacional de cimento e betão, que opera em 18 países e é atualmente liderada pelo seu filho, Francesco Caltagirone Jr..

Historicamente conhecidos em Roma como uma das maiores dinastias da construção e do desenvolvimento imobiliário, tem ainda interesses na imprensa e media, através da Caltagirone Editore, que detém jornais bem implantados em Itália, como o histórico Il Messaggero de Roma, o Il Mattino, de Nápoles, e o diário gratuito Leggo.

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Os proprietários da holding Edizione SpA são os herdeiros dos quatro fundadores da família Benetton: Luciano, Gilberto, Giuliana e Carlo. A segunda geração da família tem hoje um papel relevante na governação. O presidente da Edizione é Alessandro Benetton, enquanto representantes dos vários ramos familiares participam nos órgãos de gestão.

A Edizione é atualmente uma das maiores holdings familiares de Itália, e o negócio das roupas, com a United Colours of Benetton e a Sisley já significa apenas 10% do império, perdendo 33% das receitas desde 2010, quando começou a sentir a concorrência da Zara, H&M e Shein.

As participações em empresas como a Mundy – que através da marca Abertis gere 5.500 kms de auto-estradas em todo o mundo, e tem as concessões dos aeroportos Fiumiccino e Ciampino, ambos em Roma, junta-se ainda a Avolta a maior operadora mundial de lojas duty-free e de conveniência para viajantes, com 5.100 pontos de venda em 1.000 localizações em 70 países.

Na Assicurazioni Generali, os Benetton têm-se alinhado com Del Vecchio e Caltagirone em várias votações relevantes, não se prevê que se desliguem do bloco italiano.

Del Vechio, Caltagirone e Benneton: a oposição a Donnet/Mediobanca

Sendo a seguradora Assicurazioni Generali considerada um dos ativos estratégicos mais importantes da finança italiano e somando as participações Del Vecchio, Caltagirone e Benetton, as famílias representam cerca de 21,3 % do capital da seguradora, um volume suficientemente forte para influenciar eleições de administradores e decisões estratégicas.

São conhecidas há anos divergências quanto à estratégia para a Generali. Por um lado, um bloco composto pela administração da seguradora liderada por Philippe Donnet, com o apoio do maior acionista Mediobanca e por grande parte dos investidores institucionais internacionais onde se contam o fundo soberano da Noruega.

Os oposicionistas a Donnet Caltagirone e a Delfin têm contestado essa liderança de Donnet há vários anos. Já em 2022 tentaram alterar o equilíbrio de poder na Generali e voltaram a desafiar a gestão em 2025. Apesar disso, Donnet venceu novamente a votação dos acionistas com o apoio dos investidores institucionais. O CEO da Generali comentou, após essa assembleia geral, ao La Repubblica: “Ganhou a Generali sociedade anónima, contra um par de sócios que queriam o controlo”. Antes já tinha afirmado que “a Generali está nas mãos certas” e que tem “a confiança do mercado”.

BPCE enfrentou resistência

A oposição de Caltagirone e da Delfin a Philippe Donnet nunca foi apenas uma questão de governação da Generali. Uma parte importante da crítica incidia precisamente sobre a aproximação ao grupo francês BPCE através da combinação entre a Generali Investments e a Natixis Investment Managers. Caltagirone chegou a afirmar que a operação tinha poucas vantagens económicas para a Generali e que poderia enfraquecer o controlo italiano sobre um ativo estratégico.

O plano Generali–BPCE previa criar um gigante europeu de gestão de ativos com cerca de 1,9 biliões de euros sob gestão, controlado em partes iguais. A operação acabou por enfrentar forte resistência política e acionista em Itália, nomeadamente de Caltagirone, Del Vechio e setores do governo italiano preocupados com a transferência de influência para França. Temiam por que a união Generali–Natixis envolvia controlo de poupanças italianas, influência estratégica sobre a Generali e, afinal, questões de soberania financeira italiana. Assim, no final de 2025, Generali e BPCE abandonaram formalmente o projeto.

Do ponto de vista estratégico este grupo oposicionista defende um crescimento mais agressivo. Caltagirone e Del Vechio têm argumentado que a Generali deveria crescer mais rapidamente através de aquisições e consolidação internacional. Em 2022, chegaram mesmo a tentar substituir Donnet, alegando que a empresa não estava a explorar plenamente o seu potencial de crescimento.

Também defendem para a Generali uma menor dependência da Mediobanca e, de facto, opiniões em Itália dizem que o conflito nunca foi apenas estratégico; também foi de poder acionista. Durante décadas, a Mediobanca foi o acionista de referência da Generali com Del Vechio e Caltagirone a procurarem reduzir essa influência e aumentar o peso dos restantes acionistas relevantes na definição da estratégia.

No entanto, o plano estratégico “Lifetime Partner 27” proposto pelo CEO Donnet para a Generali foi bem recebido pelo mercado ao prometer crescimento dos lucros, dividendos elevados e recompra de ações.

O desacordo parece ser menos sobre os objetivos financeiros e mais sobre a ambição estratégica e a governação. O objetivo desta oposição tem, afinal, sido o de reduzir o papel dominante da Mediobanca na seguradora e aumentar a influência dos acionistas industriais italianos.

E o que pode acontecer em Portugal?

Os bancos italianos em disputa não têm presença em Portugal, país que conta com uma Generali ativa e em sentido de crescimento. Nesta altura a seguradora continua na corrida à compra da seguradora GamaLife, algo que faria sentido uma vez que esta está presente em Portugal e Itália e explora seguros de vida, o que falta à Generali em Portugal e que em Itália tem forte posição.

No entanto, a GamaLife tem acordo de exclusividade na distribuição de seguros vida com o Novobanco, agora parte do grupo francês BPCE. E que naturalmente está a explorar a hipótese de compra da GamaLife até porque é forte em seguros em França.

Na prática, as aquisições em Portugal serão estimuladas quer sigam um caminho conservador do CEO Donnet, quer entrem em maior ambição por parte dos seus detractores.

Por que no fim, este é um assunto exclusivamente italiano, a resolver no Salão Nobre.