Mais literacia financeira e maior digitalização são soluções para reduzir protection gap
O setor segurador português debate-se com vários problemas: uma fraca cultura de risco, literacia financeira insuficiente e as consequências da falta de seguro, como ficou visível em Leiria, podem ser devastadoras.

Em mais um painel de “Mulheres com ECO”, composto por Ana Teixeira, cofundadora e CEO da Mudey, e Sofia Mendes, membro da comissão executiva da Verlingue Portugal e diretora de Comunicação, Marketing e Sustentabilidade, foi comum a opinião de que os portugueses poupam pouco e não protegem suficientemente os seus bens – o que pode levar a consequências devastadoras na altura do sinistro.
Poupar para a reforma: um “problema do já, do agora”
No centro desta conversa esteve em foco a poupança para a reforma, um tema que tem vindo a ganhar destaque na atualidade. “É um problema do já, do agora”, avisa Ana Teixeira. “Não podemos continuar a adiar, porque todos os dados indicam que quando chegarmos à reforma, que considerávamos como garantida, vai ser muito menor do aquilo que ganhávamos na idade ativa”. Para ela, há vários fatores a condicionar a poupança, sendo um deles a literacia financeira, que é insuficiente. “Quando era pequena, aprendíamos o conceito do mealheiro, de ir poupando. Fazíamos compras e, portanto, percebíamos o valor do dinheiro, aquilo que ele podia e não podia comprar. E isso, ao longo do tempo, foi-se perdendo”.
E, apesar de se falar em introduzir estes temas nas escolas, o desafio imediato está nos adultos, não nos produtos, vinca. “Os produtos existem. Existem produtos sem risco e produtos com risco, mas é preciso perceber a diferença entre eles. É novamente o problema da literacia financeira. Mas isso não se consegue resolver só com produtos ou só com literacia financeira. O setor tem que trabalhar de uma forma colaborativa e partilhada”.
Um dos obstáculos mais concretos é a dispersão da informação. Um consumidor com produtos em várias seguradoras não tem forma simples de saber, num único lugar, o valor do seu património nem o que ele está a render. A solução passa, na sua perspetiva, por uma maior colaboração tecnológica e de informação entre seguradoras e mediadores e por uma visão mais integrada do ecossistema.
Os produtos existem. Existem produtos sem risco e produtos com risco, mas é preciso perceber a diferença entre eles. E isso não se consegue resolver só com produtos ou só com literacia financeira. O setor tem que trabalhar de uma forma colaborativa e partilhada.
Há ainda um segundo ponto: os benefícios de reforma facultados pelas empresas. Ana Teixeira defende que deveria existir uma componente de maior “obrigatoriedade” nestes benefícios. A razão é pragmática: “a obrigatoriedade força-nos a tentar entender o que estamos a ser obrigados a fazer, e isso cria literacia”.
As consequências do infra-seguro
O caso do comboio de tempestades que devastou Leiria no final de fevereiro também não pôde deixar de estar em cima da mesa. Sofia Mendes, da Verlingue Portugal que esteve no local, descreve o que encontraram: “Foram, em maioria, pessoas que mesmo tendo o seguro multirriscos – que já era quase um milagre – estavam em infra-seguro. Portanto, aquilo que vão receber não é o suficiente para conseguir cobrir os danos causados”.

Para Sofia, é necessário mudar a cultura de risco em Portugal. “São muito poucas as empresas em Portugal que têm liquidez para conseguir sobreviver e pagar os restantes danos que foram causados ao material”, explica, sublinhando que a falta de seguro e as situações de infra-seguro se devem a esta “cultura de risco muito pobre, porque [as empresas] não veem como um investimento, veem como um custo”.
O problema é, mais uma vez, de perceção: as empresas olham para o prémio do seguro como um custo adicional, quando deveria ser encarado como um investimento.
A mediação deve adotar um novo papel
Uma das mudanças de paradigma necessária é a redefinição do papel do mediador, para que passe de vendedor a consultor, defende Ana Teixeira. “O mediador é em quem o cliente confia”, diz. Para isso, são precisas ferramentas e dados em tempo real.
“Deve existir uma partilha de informação usando o que a tecnologia tem de melhor para que todas as partes consigam fazer o seu trabalho de forma mais eficaz, produtiva e eficiente”, defende.

A digitalização é, para ambas as especialistas, incontornável no setor. O consumidor de hoje quer “consultar os seus seguros no telemóvel, comparar coberturas, perceber o que tem e o que lhe falta”. Um setor que não responde a esta expectativa está a nadar contra a maré. “Não faz sentido pensarmos que vamos conseguir contrariar isso”, vinca Ana Teixeira.
A par da digitalização, a simplificação da linguagem é outro imperativo. O chamado “segurês” é um obstáculo à adesão. Sofia Mendes reconhece as limitações legais e regulamentares que condicionam a comunicação, mas defende que é possível e necessário fazer melhor: “Temos que conseguir tornar a nossa linguagem cada vez mais acessível e compreensível”, afirma. “Mas sou muito otimista, acho que é um desafio, mas que já estamos a fazer esse caminho”.
Mais mulheres no setor, mas não nos cargos de topo
O setor segurador é predominantemente masculino nos cargos de topo, no entanto existem cada vez mais mulheres interessadas em ingressar no setor. O problema está na progressão: à medida que se sobe na hierarquia, a representação feminina diminui.
Sobre as quotas, as duas profissionais partilham a mesma visão. Para Sofia Mendes, devem funcionar como “acelerador” e não como fim, “sem desvirtuar os processos e as oportunidades, porque acredito na meritocracia e acho que as pessoas devem chegar, independentemente do seu género, a essas posições de tomada de decisão pelo seu mérito, capacidade e competência”, explica. “Agora, o interesse das mulheres no setor segurador é evidente. Já não é esse o tema (…) As mulheres já superam os homens e, portanto, há, de facto, evidências de que as mulheres querem trabalhar neste setor”.
As pessoas devem chegar, independentemente do seu género, a essas posições de tomada de decisão pelo seu mérito, capacidade e competência.
Ana Teixeira concorda, defendendo uma mudança estrutural e natural, mas reconhecendo que mecanismos de aceleração podem ser úteis para tornar a desigualdade visível a quem toma decisões. “A própria sociedade foi evoluindo. Portugal ainda é um país relativamente tradicional em alguns costumes, mas existe uma evolução”, diz. “Acho que temos que criar as oportunidades, as ferramentas, para que as coisas evoluam de forma natural e todos tenhamos um papel a desempenhar na nossa diferença”.
O caminho, dizem, está a ser feito, mas mais lentamente do que o desejável, apesar de forma consistente.
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